“O seu filho tem microcefalia”, mãe relembra o dia em que recebeu a notícia


Michele conta sobre o diagnóstico após o nascimento e a possibilidade do filho não andar, não falar e ser dependente

Uma gravidez tranquila, com acompanhamento médico e ultrassons de rotina, foi assim a gestação de Michele Olivera, 27, mãe do adolescente Gabriel, hoje com 14 anos de idade. Gabriel foi diagnosticado com microcefalia após o nascimento, o que a princípio assustou a mãe e aos familiares que não tinham poucas informações para lidar com a situação, assim como os médicos na época, obtinham conhecimentos vagos a respeito do assunto. 

Microcefalia: como será o futuro das crianças em creches e escolas?

Na época com 17 anos Michele tinha sonhos e planejava como seria o seu dia a dia com o bebê. Tinha curiosidade em conhecer o seu rostinho, em amamentar e desfrutar de todas essas sensações comuns durante a maternidade. Mãe de primeira viagem, a jovem estava cheia de expectativas, pois Gabriel seria o primeiro neto da família. 

“Percebi em casa que estava perdendo líquido amniótico e fui parar na emergência da maternidade. Entraram em contato com o meu esposo e minha mãe para avisar sobre a minha internação. Gabriel nasceria naquele momento”, diz. 

Um tanto nervosa por conta da anestesia geral e ansiosa por aquele momento, Michele fala que a principio tudo ocorreu normal durante o nascimento. Gabriel não chorou ao nascer e a médica informou sobre uma pequena deformidade que havia notado:

“Ela mostrou ele bem de perto e disse que estava tudo bem. Mas que ele havia nascido com um dedinho supranumerário (dedo a mais), mas poderia ser solucionado rapidamente com uma cirurgia simples. Concordei e naquele momento meus olhos marejavam de emoção porque meu bebê havia nascido”, recorda a mãe. 

Gabriel nasceu bem pequeno com apenas 1,980 kg, 42 cm e com perímetro cefálico de 27. A Organização Mundial de Saúde considera a criança com microcefalia com perímetro cefálico igual ou inferior a 32 cm. No berçário Gabriel chamava atenção dos familiares, principalmente do pai. “Quando mostraram o bebê meu esposo não se sentiu bem, acho que ele percebeu algumas anormalidades e que nem tudo estava tão bem quanto imaginávamos”, completa. 

Ainda no quarto da maternidade Michele diz que apenas ouvia rumores, mas nada concreto em relação a saúde do filho. Gabriel além das diferenças físicas ao ser comparado com as demais crianças, também tinha dificuldades para mamar, não havia força para sucção. “O que chamou a minha atenção é que as outras mães que ficaram próximas a mim no quarto passavam a maior parte do tempo com o filho. Com Gabriel era diferente, eu ficava apenas o tempo da amamentação”, comenta. 

A revelação da doença

A equipe médica apenas estava preparando-se para ter a certeza de que Gabriel havia nascido com uma doença ainda rara na época, chamada de microcefalia. A médica primeiramente perguntou para a mãe quais as diferenças que ela notava na criança:

“Eu comentei que percebi que a cabecinha dele era bem pequena e que era quietinho, não chorava como as outras crianças com fome, ficava sempre bem quieto. Foi aí que ela me deu a notícia de que meu filho tinha microcefalia”, relembra.

A médica que informou sobre a doença deixou claro para a mãe que Gabriel poderia não falar, não se desenvolver fisicamente e que naquele momento não tinha como apresentar um diagnóstico preciso. “Lembro-me que baixei a minha cabeça e começar a chorar. Uma cena me marcou quando fui ao quatro foi o olhar do meu pai. Isso eu nunca esqueço. Retribui o olhar como um pedido de ajuda, pois o que eu iria fazer naquele momento?”, relata. 

A musicoterapia como apoio para crianças com microcefalia e para as suas mães

Michele conta que em meio as lágrimas na sua mente veio um filme do futuro que ela planejava para o filho, imagens de uma infância perfeita que já não era mais possível. “Já que a criança não vai andar, não vai falar, não vai ter um futuro normal, o que é que eu faço?”, Interrogava a mãe. 

Tratamento e os primeiros passos de superação de Gabriel 

A rotina da Michele se transformou logo após o nascimento do Gabriel, pois nesse caso, as consultas tornaram-se semanais, assim como a procura por inúmeros especialistas, como fisioterapeutas, neurologistas, terapeutas ocupacionais, foi um ato que passou a fazer parte do dia a dia da Michele. 

As alterações nos olhos das crianças com microcefalia, decorrente da infecção pelo zika vírus

Graças aos tratamentos realizados, a dedicação e persistência da mãe em procurar auxílio e ao apoio dos familiares, Gabriel desde a infância sempre apresentou evoluções, inclusive foi possível andar, falar e desenvolver inúmeras habilidades que até mesmos os médicos desconsideraram em seu nascimento:

“Os primeiros passos do Gabriel na clínica de reabilitação foi o dia mais importante da minha vida. Me emocionei muito e a fisioterapeuta também, porque por trás daquelas pisadas havia muita fé e esperança”, revive a mãe. 

 

Michele Oliveira, mãe de Gabriel com microcefalia
Congresso Nacional de Microcefalia

Juliana Rodrigues