A musicoterapia como apoio para crianças com microcefalia e para as suas mães


Quando a mãe se sente mais calma, consegue tranquilizar a criança

Com a grande incidência de casos de microcefalia, principalmente na região Nordeste brasileira, muitos profissionais da saúde têm buscado compreender de que maneira as crianças poderão ser reabilitadas e como as mães poderão ser acolhidas.

A psicóloga com especialização em Musicoterapia, Eliane Teles, trabalha da Fundação Altino Ventura (FAV) e explica que os sons chegam à criança quando ela ainda está no ventre materno, por meio da vibração, que é um dos elementos que ajudam a acalmar a criança e a estimulam. As vibrações podem ser sentidas pelo bebê quando o instrumento é tocado perto dele. Além dos sons, a especialista acrescenta que as texturas e formas dos instrumentos também podem ser exploradas na Musicoterapia.

“O mesmo som que acalma uma criança não necessariamente vai acalmar a outra, porque a música que eu gosto não necessariamente vai ser a música que o outro gosta e isso tem a ver com a nossa identidade sonora, são sons que são formados, que fazem parte da vida da gente e que a gente reconhece e passa a apreciar e a gostar”, esclarece.

O artigo Musicoterapia para reabilitar crianças com microcefalia, apresenta a Musicoterapia como intervenção que pode ajudar no tratamento da criança com microcefalia. O déficit cognitivo que é uma das características da doença, tendem a responder satisfatoriamente por meio do método musicoterapêutico.

A especialista enfatiza que quando a pessoa gosta de um som e de determinadas músicas, está sendo trabalhada a área neurológica, principalmente a área do cerebelo, e isso ocorre também com os bebês, que por meio dos sons, têm toda a área neurológica sendo trabalhada.

“Então quando essas crianças chegam para a gente, chegam abrindo uma página para a sociedade, uma página nova, que é desconhecida, tudo que se havia feito antes, hoje é questionado, então hoje, a ciência está buscando, está procurando, formas de ajudar melhor as crianças com microcefalia e as famílias que necessitam muito desse apoio”, esclarece.

A musicoterapeuta conta que com chegada das crianças com microcefalia, também chegam novidades, e por isso, o trabalho que antes já era realizado tem se adaptado tanto à demanda das crianças, quanto das mães. 

O estudo A importância da Musicoterapia na Paralisia Cerebral: percepção da equipe profissional, explica que a música é um recurso muito importante na educação especial porque trabalha a socialização, a capacidade motora e se trata de um importante suporte para auxiliar nas aprendizagens como a leitura e a escrita.

A musicoterapeuta Eliane Teles conta que durante as sessões, o cenário em determinado momento se encontra caótico, pois quando uma criança chora, outra criança também é estimulada a chorar e as técnicas de musicoterapia aplicadas não apenas agem acalmando as crianças, como também acalmam as mães:

“Durante a terapia, as mães também se acalmam, porque percebem que existem formas de acalmar. Muitas chegam aqui sem saber como acalmar porque a criança chora o tempo todo. Então a gente vai ajudando elas a conhecer, a buscar formas de acalmar essa criança e também de se acalmarem, para que possam se empoderar o suficiente para pegar essa criança nos braços e fazê-la se tranquilizar.”

Para os momentos de maior impaciência dos bebês, a psicóloga explica que os sons intermitentes são os mais utilizados para acalmar e não por conta de serem mais tranquilos, mas por que chamam a atenção da criança. Já a música cantada geralmente é um recurso para acalmar as mães, que se sentem mais tranquilas e aptas a acalmarem a criança: “É um momento em que elas estão tão atentas, tão assoberbadas de atividades com as crianças, que se esquecem delas e a música ajuda a fazer esse contato com elas, esse relaxamento”.

Segundo a especialista, a identidade sonora é um elemento que pode ajudar a mãe e o profissional a compreender melhor a criança, e a música neste caso é o recurso que pode ajudar as crianças, a música que será interessante para o bebê é a mesma que ele ouvia quando estava no útero da mãe, ou seja, é a música que era ouvida pela gestante:

“Então não precisa ser uma música tranquila, são importantes, ajudam, mas a identidade sonora dessa criança pode estar formada pelo som inclusive, que o vizinho estava ouvindo, que chegava para aquela criança  ainda no útero. A música que pode ser cantada para a criança é a que faz parte do ambiente sonoro dela, onde ela foi gestada e onde ela está vivendo atualmente.”

Na Musicoterapia é importante que se trabalhe a variedade sonora e é importante que a criança aprenda muitos sons, de modo que posso reconhecê-los e se desenvolver melhor. A psicóloga compara a importância do amadurecimento da visão com o amadurecimento auditivo, mas também explica que os sons não precisam ser apresentados todos de uma vez:

“Todo tipo de som deve ser apresentado, o simples som de uma batida sobre uma panela, o som do estalar da língua, o som da voz é muito importante para a criança, o som de bater uma porta, de arrastar uma cadeira, tudo isso estará ajudando a criança a diferenciar, ela precisa aprender a discriminar os sons, reconhecer, saber que som é esse.”

Tem sido um desafio, principalmente para as mães das crianças com microcefalia, o trabalho em prol da reabilitação de seus filhos:

“As mães dessas crianças com microcefalia são de uma fortaleza para chegar e enfrentar todo tipo de dificuldades que vêm encontrando, mas com o objetivo de melhorar a qualidade de vida dos seus filhos, elas merecem a nossa admiração e respeito. Tenho aprendido demais com essas crianças e com essas mães.”

E quem poderá discordar do poder que há na música?



 

Eliane Teles – É psicóloga com especialização em Musicoterapia, faz parte da Fundação Altino Ventura (FAV) em Recife (PE) e trabalha no Centro e Reabilitação Visual e/ou Múltiplas Deficiências Meninas dos Olhos

Estudos em Musicoterapia: estudos-musicoterapia.webnode.com.br

 

 

 

 


Fontes

1º CNM. 1º Congresso Nacional de Microcefalia.

Musicoterapia para reabilitar crianças com microcefalia. UFG – Universidade Federal de Goiás: www.ufg.br/n/88810-musicoterapia-para-reabilitar-criancas-com-microcefalia

A importância da Musicoterapia na Paralisia Cerebral: percepção da equipe profissional. Realizado por: Emanuela Aurora Nunes Ribeiro: comum.rcaap.pt/bitstream/10400.26/4014/1/Emanuela%20Ribeiro.

Daiana Barasa