Maternidade, sexualidade, sensação de incapacidade: quantas complexidades!


Se você não se sente inteira, acredite, não é só você que se sente assim

O artigo Sexualidade na gravidez, destaca que algumas complexidades se instauram na vida conjugal com a gestação como a de evitar o contato, a fragilidade do casal, temores e angústias referentes à chegada da criança e ao desempenho como pai e mãe, entre tantas outras. 

A psicóloga Aline Aguiar, explica que quando a mulher engravida, o desejo sexual pode se tornar maior ou menor e é um processo individual da mulher. A especialista levanta os questionamentos: “Mulher grávida é desejável ou santa? Mãe faz sexo?”. E acrescenta que essas questões são socioculturais e que quando se tem um bebê na barriga, obviamente é porque houve uma relação sexual, mas ao mesmo tempo é enfatizado o papel da mulher como mãe, muitas vezes “assexuado”: “Então como é que juntam esses dois momentos? Ter a sexualidade normal e compatibilizar com a função do papel materno que está ligado a uma visão santificada, mais angelical? E isso pode atrapalhar a vida sexual do casal”.

Já a matéria Sexualidade na gravidez (2), destaca que a gravidez é um momento de crise para o casal e que a maioria dos casais tem receio de pedir informações sobre o assunto. A diminuição na freqüência sexual costuma ser de 40% a 60%.

A especialista ressalta que conforme o crescimento da barriga, nem todas as posições são confortáveis, mas que essa poderia ser uma maneira de o casal exercitar a criatividade, reformulando a sexualidade a fim de encontrar novas formas de estar junto: “Antes de pai e mãe, há um casal e é importante não deixar esse aspecto da vida de lado, da afetividade, da proximidade do casal”.

O estudo A expressão da sexualidade no período gestacional, ressalta que a sexualidade na gravidez sofre influência de aspectos anatômicos, psicológicos, de mitos, tabus, questões religiosas e socioculturais, que também envolvem o desconhecimento do casal sobre o próprio corpo. A mulher foi orientada por muito tempo de que era inapropriado manter relações sexuais na gravidez. O estudo também destaca a importância de que o sexo e a sexualidade continuem desenvolvendo na mulher o erotismo, para que até mesmo na gestação com tantas transformações corporais ainda se sinta desejada.

A psicóloga explica que principalmente quando a mulher está em sua primeira gestação costuma pensar na relação com a própria mãe, além de se fazer questionamentos como “vou ser boa mãe?”, e aí haverá coisas que se poderá desejar que se repita e obviamente algumas que não.

 

                                                    AS INSEGURANÇAS EM RELAÇÃO À MATERNIDADE

 

“O sentimento de insegurança é natural em relação à capacidade de ser mãe, o papel materno é muito edificado em nossa cultura. Quando se fala a palavra mãe, as primeiras palavras que vêm à nossa cabeça são: amor, responsabilidade, cuidado, proteção, são coisas que não se tem um manual de como aprender como será feito. A insegurança em relação a dar conta ou não de ser mãe é natural”, esclarece a especialista.


A psicóloga destaca que a maternidade emocional também está muito presente nos aspectos psíquicos da gestação, o sentimento de plenitude e incapacidade são alternados, ora a mulher olha para a barriga e acha o máximo e ora pode achar péssimo, ora a mulher sente que será a melhor mãe do mundo e ora se acha que não poderá dar conta dessa função de jeito nenhum.

A especialista ressalta que em relação à mulher nos dias de hoje, não é novidade que ser mulher envolve conciliar diversos papéis na sociedade e psiquicamente isso pode trazer muitas angústias porque o papel materno ocupa um espaço muito grande na vida da mulher, mas isso não fará com que a mulher deixe de ser mulher, esposa, profissional: 

“Esse é o momento que vivemos, principalmente as mulheres da classe média, com famílias menores, sem opções de pessoas para cuidar dessa criança, então tem que se recorrer à creche, à babá e não é um processo fácil. Tornar-se mãe e pai é uma construção e não há um botão que se aperte e que estabelece o pai e a mãe. É quando se pega o bebê que o sentimento de que aquela criança é seu filho se instaura, e algumas pessoas já têm essa sensação na gestação, outras adquirem com o passar dos dias."

Sexualidade, sensação de incapacidade e tantas outras complexidades envolvem o “ser mãe” e isso não costuma fazer parte das revistas e comerciais de TV, não é mesmo?


Aline Melo de Aguiar - Psicóloga; coordenadora do espaço AMA; doutora em Psicologia Social (UERJ) – foco em desenvolvimento infantil, gestação e parto; mestre em Psicologia Social (UERJ); especialista em Atenção Integral à Saúde Materno-Infantil (UFRJ); terapeuta cognitivo-comportamental; facilitadora de grupos reflexivos de gênero, pelo Instituto Noos; especialista em intervenções precoces pela ABENEPI e terapeuta de família pelo Instituto Noos (em formação).


Fontes

CNGRAVIDAS. Congresso Nacional para Grávidas

Sexualidade na gravidez. Guia do Bebê: guiadobebe.uol.com.br/sexualidade-na-gravidez

Sexualidade na gravidez (2). Conversas com barriguinhas: www.conversascombarriguinhas.pt/maternidade/sexualidade

A expressão da sexualidade no período gestacional. Realizado por: Danielle da Costa Souto; Catheline Rubim Brandolt; Cristina Saling Kruel; Suyane Oliveira Tavares; Elaine Ramos Bitelbron: www.unifra.br/eventos/interfacespsicologia/Trabalhos/2886.pdf

Daiana Barasa