Maternidade roubada: saiba sobre alguns dos procedimentos feitos sem necessidade


SÃO MAIS DE CINQUENTA INTERVENÇÕES DESNECESSÁRIAS NO MOMENTO DO PARTO

De acordo com a pesquisa Representações sociais e decisões das gestantes sobre a parturição: protagonismo das mulheres, a opinião e decisão da mulher sobre a via de parto se torna manipulável pelo medo do desconhecido, do sofrimento imposto pela por e dos interesses dos vários atores sociais (empresas, ciência, tecnologia, profissionais, mídia, marketing etc.).

O assunto violência obstétrica tem sido cada vez mais discutido de alguns anos para cá. E o que é? A doula Fabíola Benetti esclarece que violência obstétrica é quando é feito o que a mulher não deseja. Pode ocorrer antes, durante ou após o parto, é tudo o que for contra a vontade da mulher: “Às vezes uma simples palavra, uma frase mal dita como “Ah! Tá doendo? Mas na hora de fazer não doeu, né mãezinha!”, isso é uma forma de violência obstétrica”.

Segundo o artigo Médicos, Mulheres e Cesáreas: a construção do parto normal como “risco” e a medicalização do parto no Brasil, o “conceito de risco” inerente ao discurso médico, parece ser fundamental para que as mulheres aceitem uma cesárea sem real indicação. As mulheres aceitam a ideia da cirurgia, principalmente a partir do discurso de seus médicos.


                                           QUAIS PROCEDIMENTOS SÃO FEITOS SEM NECESSIDADE?

 

O documentário Violência obstétrica – A voz das brasileiras, reúne relatos de mulheres que sofreram violência e guardam lembranças sobre o nascimento dos filhos repletas de terror, como é o caso do relato de Thielly Manias, que sofreu uma episiotomia (corte realizado entre a vagina e o ânus em caso de parto normal) sem seu consentimento e sem aviso, o que gerou meses de desconforto físico por conta de inflamação e infecção, sem contar os prejuízos psicológicos.

Segundo o artigo O “corte por cima” e o “corte por baixo”: o abuso de cesáreas e episiotomias em São Paulo, a episiotomia é uma rotina médica desde meados do século XX e se baseava na crença de que facilita o nascimento e de que preserva a genital da mulher, mas em 1980, já havia evidência médica suficiente para abolir esta prática.

A doula enumera quais os principais procedimentos de intervenção no parto dentre as mais de cinquenta existentes, que podem se enquadrar em violência obstétrica.

A lavagem intestinal que geralmente é feita quando a mulher está em trabalho de parto não é necessária. Fabíola esclarece que o parto é um evento fisiológico e que o corpo da mulher se prepara para a expulsão do bebê nas semanas que antecedem o parto, um dia antes ou até mesmo no mesmo dia do nascimento. A mulher pode apresentar diarreia, dor de barriga e se comeu durante o trabalho de parto, pode vir a vomitar, como se o corpo estivesse num momento de preparo, de limpeza: “Se resta algum resíduo no intestino da mulher, será eliminado e de uma maneira praticamente insignificante, diferente de um caso de lavagem intestinal”.

A tricotomia se trata da raspagem dos pelos pubianos, um procedimento também desnecessário e que pode representar para a mulher constrangimento: “O ser humano tem pelos no corpo inteiro e é uma maneira de evitar contaminação e não algo contaminante. Se a mulher quer que o pelo seja raspado, tudo bem, é uma escolha dela. Mas contra a vontade, é um ato de violência”.

A ocitocina sintética é uma droga utilizada com a finalidade de acelerar o trabalho de parto e é violência. A utilização da ocitocina segundo a doula, só é indicada em casos de trabalho de parto ativo em que as contrações se tornam mais espaçadas. 

A cuidadora também menciona a litotomia que é a posição conhecida como “frango assado” que não é a mais indicada para parir a criança: “O bebê primeiro vai para cima para depois descer e ficar na posição certa. Já nas posições verticais: sentada, de cócoras, de quatro, são mais fáceis, porque a gravidade facilita a saída da criança”.

Já o puxo dirigido é o ato de mandar a mulher fazer força para a saída da criança quando ela não sente essa vontade, o que pode gerar até mesmo ferimentos na mulher.

A doula também explica sobre o kristeller que também é uma forma de violência obstétrica, pois se trata de uma manobra em que se empurra a barriga da mulher, geralmente feita por enfermeiras ou anestesistas: “Esse procedimento pode machucar o bebê e machuca a mulher, pode danificar órgãos internos”.

Já o toque vaginal, que é o procedimento que avalia a dilatação do colo do útero e se a bolsa estourou ou não, também pode se caracterizar em um quadro de violência quando não realizado de acordo com a indicação. A doula menciona que em casos de hospitais universitários, a mulher que chega em trabalho de parto é enxergada como objeto de estudo e várias enfermeiras e médicos residentes fazem o exame de toque, o que expõe a mulher a uma situação de constrangimento: 

 

“É importante que se peça à mulher permissão para o toque, e se não se trata de uma primeira avaliação, a mulher pode sim rejeitar porque não há a necessidade de verificar a todo momento. Se a bolsa estiver rompida, por exemplo, o toque pode gerar infecção, pode gerar contaminação”.


A doula explica que é fundamental que a mulher mantenha a calma e nesse processo ter uma cuidadora para apoio é fundamental, até mesmo para evitar idas ao hospital fora de hora, o que pode gerar intervenções desnecessárias como a aplicação da ocitocina e assim, o bebê nascerá antes do tempo certo.


 

 

Fabíola Benetti
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Fontes
CNGRAVIDAS – Congresso Nacional para Grávidas: cngravidas.com

PEREIRA, Raquel da Rocha; FRANCO, Selma Cristina; BALDIN, Nelma. Representações sociais e decisões das gestantes sobre a parturição: protagonismo das mulheres. Saude soc. [online]. 2011, vol.20, n.3, p.579-589: www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12902011000300005&lng=pt&nrm=iso

CHACHAM, A.S. Médicos, mulheres e cesáreas: a construção do parto normal como “risco” e a medicalização do parto no Brasil. 2010.

Violência Obstétrica – A voz das brasileiras. 2012: www.youtube.com/watch?v=eg0uvonF25M

DINIZ, CSG; CHACHAM, A. O “corte por cima” e o “corte por baixo”: o abuso de cesáreas e episiotomias em São Paulo. Questões de Saúde Reprodutiva. 2006; 1(1):
80-91.

Daiana Barasa