Comer para relaxar é um hábito vicioso


O indivíduo se sente sobrecarregado emocionalmente e encontra a recompensa nos alimentos calóricos, diz terapeuta

Abre a geladeira, armários e a procura nem sempre é consciente, mas o anseio é nítido: preciso comer algo. Para detectar se a sua fome é emocional é preciso observar o próprio comportamento com a comida no dia a dia. É uma pessoa insaciável na hora das refeições? Quais são os seus desejos alimentares? O psicólogo e idealizador do projeto Mente em Forma, Roberto Garcia, explica que é comum o indivíduo encarar o alimento não como fonte de nutriente e energia, mas como um instrumento para aliviar as emoções e o estresse das ocorrências indesejadas. 

“Este mecanismo é aprendido pelo cérebro que estabelece associações e significados, criando condições perfeitas para criação deste hábito que gera sensações de recompensa e alívio a curto prazo, porém culpa e angústia posteriormente”, adverte o psicólogo. 

 

O autoconhecimento sabotador

O terapeuta afirma que muitas pessoas que associam o alívio emocional com o consumo de determinados alimentos têm a consciência e autoconhecimento sobre a sensação que essas substâncias proporcionam ao corpo e ao emocional:

“Toda vez que se sentem sobrecarregados emocionalmente não conseguem se desvincular da necessidade de se recompensarem com a comida hipercalórica”, completa. 

A partir do momento em que o indivíduo possui a consciência do alívio causado por certos alimentos o psicológico salienta que esse comportamento se torna um padrão cognitivo disfuncional e destrutivo, pois os impulsos serão ativados para combater os sentimentos negativos e por instantes provocar a sensação de bem-estar. 

Passar por dificuldades emocionais é comum, ressalta o terapeuta, porém a pessoa que deseja perder peso precisa compreender e se convencer de que os impasses emocionais e problemas do dia a dia irão apresentar a crença interna de que só é possível encará-los através do consumo impulsivo pela comida, geralmente calórica. 

É possível relaxar mudando os hábitos e combater a fome emocional?

O terapeuta recomenda identificar o comportamento e saber se a fome é desencadeada de uma situação emocional de estresse, ansiedade e angustia ou se realmente é um fator fisiológico. “O cérebro pode ser treinado para entender que uma emoção negativa não é uma emergência. Não é só a comida que pode nos fazer distrair”, pontua. 

Para se livrar da fome emocional o primeiro passo é identificá-la. Após perceber que está sendo movido por um impulso o psicólogo recomenda substituir a comida por outras atividades que também podem relaxar e promover o bem-estar, como: atividades físicas, leituras, filmes e meditações. 

“Saber diferenciar estes aspectos, ajuda o paciente a se conscientizar e se automonitorar para que sejam criadas novas alternativas e soluções mais habilidosas e funcionais”, sugere. 

 

Mindfulness: trabalhe a alimentação consciente

O conceito budista contribui para eliminar as emoções negativas, como o estresse, ansiedade e outras sensações no momento da refeição. Diversos estudos analisam os benefícios da alimentação consciente para combater a compulsão alimentar. Pesquisa realizadana Universidade do Estado da Indiana e cientistas da Universidade de Duke avaliou 150 pessoas com compulsão alimentar e comparou a terapia mindfulness ao tratamento convencional terapêutico. Os participantes que adotaram a técnica mindfulness conseguiram desfrutar melhor a comida e controlaram a alimentação de forma mais natural. 

O contato pleno com a comida e a observação do aroma, textura e aparência ajuda o indivíduo a se conectar emocionalmente, encontrar o equilíbrio e não tornar a refeição um hábito inconsciente para descarregar as tensões, o que geralmente dificulta a saciedade e o controle do que está sendo ingerido.

Hábitos modernos dificultam a conexão com as refeições e passamos a comer em frente a televisão, do computador, de forma ansiosa e cada vez mais distante do alimento. Estudo realizado em Harvard aponta dicas para iniciar a alimentação consciente no dia a dia e eliminar as tensões emocionais. Praticar pelo menos uma vez na semana esse conceito é uma forma de gradativamente tornar um hábito:

-Defina um temporizador de 20 minutos, o tempo adequado para uma refeição de tamanho normal;

-Tente durante a alimentação comer com a mão não dominante, ou seja, se for destro segurar o talher com a mão esquerda;

-Coma em silêncio por pelo cinco minutos e pense no trajeto de produção desse alimento, desde o agricultor que colher, por todos os caminhos que a comida percorreu até chegar na sua casa;

-Mastigue bem todos os alimentos e coloque pequenas quantidades na boca;

-Antes de abrir a geladeira ou armário respire e pense consigo: “Estou realmente com fome”? Se não, faça uma atividade que também possa te relaxar, como caminhar, ler, assistir a um filme. 

Roberto Garcia, Psicólogo 
Idealizador do projeto Mente em Forma

Referências:
https://www.washingtonpost.com/lifestyle/wellness/10-ways-to-beat-holiday-stress-with-fitness-and-nutrition/2015/12/14/d2de44c0-9dec-11e5-8728-1af6af208198_story.html
https://www.washingtonpost.com/lifestyle/wellness/why-pleasure-is-an-important-part-of-healthful-diet/2015/12/06/a037ad8a-985c-11e5-b499-76cbec161973_story.html
http://www.health.harvard.edu/healthbeat/mindful-eating-may-help-with-weight-loss
http://www.huffingtonpost.com/joe-s-moore/exercise-the-steadfast-co_b_7603752.html
http://www.apa.org/pi/families/resources/prevent-obesity.aspx

Juliana Rodrigues