Aumento no número de casos de câncer de tireóide está relacionado com a radiação médica


Exames como tomografia computadorizada e mamografia emitem radiação ionizante que pode provocar alterações na glândula tireoidiana

A cada ano, o número de pessoas com doenças cancerígenas só cresce. Segundo dados fornecidos pelo INCA (Instituto Nacional de Câncer), nos Estados Unidos, o câncer de tireóide representa 3% de todos os cânceres que atingem principalmente as mulheres. Já no Brasil, este tipo de câncer, segundo dados de 1994 a 1998, representa 6,4% dos cânceres das regiões da cabeça e pescoço.

A médica e especialista internacional em Ultrassonografia, Lucy Kerr, explica que o número de casos de câncer de tireóide triplicou nos últimos 30 anos e que este aumento está relacionado com o fator ambiental:

“O nódulo tireoidiano é um problema clínico, cada vez mais frequente, e afeta de 20% a 76% da população, e por que essa diferença tão grande? Porque em algumas regiões, em alguns locais, predomina uma população mais jovem, e em outras regiões, predomina uma população mais idosa, mais propensa a ter o câncer e que se expôs ao longo de toda a sua vida a todos os fatores cancerígenos que induziram a formação do nódulo tireoidiano.”

A especialista destaca que metade dos pacientes que têm um nódulo palpável, quando é examinado por meio de ultrassonografia, apresenta muitos outros nódulos, além dos que são palpáveis: “Surge nos EUA, em torno de 300 mil novos nódulos de tireóide ao ano, ou seja, é uma quantidade muito grande de patologias, para lidar, e para ser corretamente manejada”.

A médica esclarece que esses nódulos tireoidianos são mais frequentes em pacientes idosos e em mulheres com propensão à doença. Assim como este mal está mais inclinado a ocorrer em populações que sofrem com a deficiência de iodo (peça fundamental para a glândula tireoidiana produzir os seus hormônios). Mas a especialista também destaca que a exposição das populações à radiação ionizante, representa um grande fator de risco para o aumento da incidência de patologias tireoidianas e para o desenvolvimento de nódulos benignos ou malignos.

 

DE ONDE VEM ESSA EXPOSIÇÃO À RADIAÇÃO IONIZANTE?

 

A especialista e pesquisadora neste assunto, explica que a radiação ionizante vem de explosões de bombas atômicas, que possuem grande carga de radiação, o que já foi provado por meio da análise das tragédias das cidades japonesas Hiroshima e Nagasaki. Nestes locais, houve aumento da incidência de nódulos tireoidianos. “Mas seriam apenas fatos pontuais e regionais?” – questiona a especialista. Foi provado que nos locais dos acidentes nucleares de Chernobyl e Fukushima, também houve aumento da incidência não apenas de câncer tireoidiano, como de mutações genéticas no decorrer dos anos, caracterizadas pela deformação e anomalias em animais e seres humanos.

“Entretanto, o aumento do câncer tireoidiano que nós constatamos foi generalizado, afetou todas as populações de todo o mundo, não são casos pontuais, portanto, não podem ser explicados por explosões de bombas atômicas ou acidentes nucleares, então para essa incidência mundial, o fator teria de estar relacionado a algo que afete diretamente toda a população, e esse fator é a radiação médica.”

 

COMPREENDA A RELAÇÃO ENTRE A RADIAÇÃO MÉDICA E O CÂNCER DE TIREÓIDE

 

De acordo com artigo publicado pela American Cancer Society (Sociedade Americana de Câncer), crianças apresentam risco maior do que adultos de desenvolver câncer por conta de radiação e só podem se submeter a exames como tomografia computadorizada apenas quando se fizer estritamente necessário.

A especialista em Ultrassonografia, explica que a radiação de origem médica é a principal vilã causadora de câncer, principalmente tireoidiano e que dados dos Estados Unidos mostram de acordo com pesquisa da Comissão de Energia Nuclear dos EUA desde o ano 1980 até os tempos atuais, que houve aumento de seis vezes da exposição da população americana à radiação.

O estudo Alterações tireoidianas associadas à radiação externa em crianças e adolescentes, expõe que altas doses de radiação ionizante, podem trazer graves consequências em humanos, incluindo o câncer. E a tireóide por ser uma glândula sensível à radiação costuma sofrer alterações depois de exames como a tomografia que envolvem as regiões cabeça e pescoço .

De acordo com dados da Agência Internacional de Energia Atômica (Internacional Atomic Energy Agency), mais de 50 países, incluindo o Brasil, foram observados para se tentar compreender a evolução dos casos de câncer de tireóide, nos EUA, o número chega a 2,8 milhões de casos, com prevalência em crianças e mulheres.

“E aqui no Brasil não é muito diferente, senão pior, um relatório divulgado em 2009, reviu todas as causas de aumento da exposição à radiação, e 75% dessas causas é decorrente da radiação médica. É um número muito grande, três quartos da radiação total a que estamos expostos vem de exames médicos ou de procedimentos médicos”, alerta a especialista Lucy Kerr.

A médica e pesquisadora ressalta que a mamografia também utiliza muita radiação ionizante e é cancerígena, e mesmo quando o mamógrafo está posicionado sobre a mama, ainda assim, o pescoço também é afetado pela radiação: “E a radiação não é emitida apenas sobre o ponto exato onde é direcionada, a radiação pode se dissipar”.

A maneira de diagnosticar o câncer ou outros problemas de saúde pode levar ao câncer.

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Dra. Lucy Kerr – Médica formada pela USP, especialista em Ultrassonografia. Reconhecida como Ultrassonografista pela Sociedade Brasileira de Ultrassonografia (SBUS); é especialista internacional na mesma área pela Federação Internacional das Sociedades de Ultrassonografia da América Latina (FISUSAL). Também possui título internacional pela American Register of Diagnostic Medical Sonography (ARDMS), nos EUA. Pioneira na área de Ultrassonografia no Brasil, assim como é pioneira na introdução dos exames Doppler e Elastografi . É uma especialista em constante atividade de pesquisa e que procura sempre novas metodologias que poderão fazer a diferença na obtenção de diagnósticos e na Medicina em um âmbito geral.

Site: www.portallucykerr.com

 


FONTES

CONASAÚDE. Congresso Nacional de Saúde.

Câncer da Tireóide. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva: www.inca.gov.br/conteudo_view.asp?id=2187

Medical radiation. American Cancer Society: www.cancer.org/cancer/cancercauses/radiationexposureandcancer/index

Alterações tireoidianas associadas à radiação externa em crianças e adolescentes. Realizado por: Cassiane Cardoso Bonato; Regina Helena Elnecave: www.scielo.br/scielo.php?pid=S0004-27302011000600002&script=sci_arttext&tlng=es

Nuclear Medicine in Thyroid Cancer Management: a pratical approach. Internacional Atomic Energy Agency. March, 2009.

 

Daiana Barasa