A amamentação que vai além do ato de alimentar o bebê


O ALEITAMENTO PODERIA ESTABELECER VALORES HUMANOS IMPORTANTES POR MEIO DO CONTATO ENTRE MÃE E FILHO

A pesquisa Amamentação: um resgate histórico, destaca que a amamentação é uma relação humana, inscrita na cultura e submetida à esfera social e esse “fenômeno” transcende o aspecto nutricional do aleitamento, assim como ultrapassa a junção mãe-filho.

A psiquiatra e cientista especialista em assuntos em torno da concepção humana, Eleanor Luzes, explica sobre a relação mãe e filho estudada por Harlow no final dos anos 1940, por meio da experiência com macacos. Os primatas eram separados abruptamente de suas mães e eram postos em contato com mães de espuma e com mães de arame (estas responsáveis pelo aleitamento por meio de mamadeira). Os macacos se voltavam para as mães de arame apenas para o alimento e sempre que se sentiam assustados, procuravam as mães de espuma e com estas passava a maior parte do tempo. O que foi constatado por meio deste experimento foi a importância do contato, do afeto, do tempo com o recém-nascido.

 

“Depois que as fêmeas experimentadas se tornavam adultas e tinham bebês, se tornavam violentas, jogando suas crias contra a parede. E criadores de animais sabem, inclusive, que a separação abrupta pode gerar a violência”, esclarece.

 

A pesquisadora relembra que em 2010 havia no mundo 363 conflitos, situação que hoje é bem pior, assim como faz menção de que em 2014 havia 29 milhões de refugiados de guerra segundo a Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados).

Para a psiquiatra, o aleitamento transmite uma certeza no mundo de que não haverá escassez ou fome, situação esta que foge da realidade atual em que uma em cada oito pessoas no mundo passam fome e crianças muito frequentemente. Segundo dados de 2012, da organização não governamental Salvem as Crianças, dois milhões de crianças morrem por ano por falta de cuidados e de alimentação adequada.

De acordo com o Manual do Aleitamento Materno, o sucesso do aleitamento depende da qualidade da interação entre a mãe e o bebê em que por meio do contato físico e visual, mãe e filho emitem sinais um ao outro, que serão interpretados instintivamente originando comportamentos de respostas contingentes e adequados, o que conduz a uma adaptação entre mãe e bebê cada vez mais rica e ao mesmo tempo complexa.

A pesquisadora destaca que Jean Ziegler, que foi consultor das Nações Unidas, falava sobre o direito à alimentação e destacava que todos os dias 100 mil pessoas morrem no mundo por fome ou por consequências da fome: “A cada cinco segundos, uma criança com menos de dez anos morre de fome, a cada quatro minutos alguém fica cego por falta de vitamina A. Em 2004, 826 milhões de pessoas sofreram com a subnutrição. Subnutrição que também impede as pessoas de terem uma vida familiar normal, de trabalhar, de ter uma vida sexual”.

A cientista enfatiza que há evidências de que as mães em áreas urbanas são menos propensas a amamentar os filhos: “No Brasil, 160 milhões de pessoas vivem em área urbana e é uma realidade do mundo inteiro. Mesmo em uma análise de 35 países, o número de crianças que vivem em áreas urbanas amamentadas, é menor”.

A psiquiatra esclarece que de acordo com a distribuição de óbitos em 2010 no Brasil, há um percentual de 50% de mortes neonatais precoces e essa taxa de lá para cá só tem aumentado:

 

“E estes óbitos infantis são dominantemente por prematuridade, asfixia, má formação congênita. Então, grande parte destas complicações são passíveis de prevenção no mundo Ocidental e, grande parte delas são causadas por conta da intervenção médica”.

 

A cientista destaca que o médico Nils Bergman, especialista em Neurociência perinatal, chamava a atenção para a questão de que interditar uma gestação é privar alguém do melhor alimento que pode ter, o que também se estende a uma privação sensorial e afetiva, porque o contato pele a pele e a vivência amorosa é de extrema importância.

 

“Dois dias depois do parto, há uma pulsação. E essa pulsação libera ocitocina o suficiente para que haja um bom aleitamento. E a mesma coisa ocorre com a beta-endorfina que é uma substância que atua como analgésico natural. Ter a beta-endorfina ajuda o bebê que passou pelo canal vaginal e que ainda ficou dolorido, de alguma maneira a se sentir melhor.”

 

A pesquisadora destaca a frase de James Croxton de que os humanos são os únicos mamíferos que criam seus filhos como se não fossem mamíferos e, neste ponto se assumem as bases da afetividade, da fé, sexualidade, da generosidade, capacidade e fraternidade.

A amamentação é um ato de alimentar que transpassa essa função e, que pode transmitir sentimentos que talvez nunca possam ser quantificados ou qualificados até mesmo pela Ciência.


 

 

Eleanor Luzes – Psiquiatra e cientista.

 

 

 

 


Fontes

Congresso Internacional de Ciência do Início da Vida – Cinciv: vivalem.com.br/cinciv

Amamentação: um resgate histórico. Realizado por: Maria Lúcia Magalhães Bosi; Márcia Tavares Machado: www.esp.ce.gov.br/cadernosesp/index.php/cadernosesp/article/view/4/2

Manual do Aleitamento Materno. Comitê Português para a UNICEF – Comissão Nacional. Iniciativa Hospitais Amigo do Bebê: www.unicef.pt/docs/manual_aleitamento.pdf

Pelo menos cinco crianças morrem de fome a cada minuto, diz ONG. Realizada por Renata Giraldi: memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2012-02-16/pelo-menos-cinco-criancas-morrem-de-fome-cada-minuto-diz-ong

Estudo de Harlow sobre dependência em macacos: www.youtube.com/watch?v=qjiioOmWnqg

Daiana Barasa