A alimentação na gestação pode influenciar alterações nos genes da criança


A dieta não pode ser restritiva e nem hipercalórica

No mês passado, a atriz Deborah Secco declarou ter feito jejum durante a gestação sob a supervisão de sua nutricionista, o motivo dessa restrição e de todos os demais cuidados, era voltar ao peso normal o mais rápido possível após o parto. Com pouco mais de duas semanas após o parto, a atriz já estava exibindo um corpo perfeito e com menos de trinta dias após parir, já tinha voltado aos treinos mais intensos. A nutricionista veio a público desmentir o jejum na gravidez e disse que Deborah realizou jejuns programados após a gestação, “já que não estava amamentando”. 

Afinal, no que a saúde da mãe e os hábitos alimentares influenciam na saúde da criança? Segundo a ciência, em tudo! 

De acordo com a pesquisa Efeitos da Desnutrição Intra-Uterina e da Recuperação Nutricional sobre Respostas Metabólicas ao Exercício Crônico em Ratos Jovens, o grupo de ratos analisados que nasceram de ratas submetidas a dieta hiperprotéica, apresentava alterações no peso na fase de desenvolvimento, o déficit ponderal (relacionado ao peso) se manteve na vida adulta, mesmo após a realimentação desses animais, o que reforça o conceito de que a recuperação nutricional nesses casos pode ser apenas parcial.

A pediatra e endocrinologista infantil, Andreza Juliani, explica que vários estudos realizados com ratas, mostraram a relação da dieta a que eram submetidas com a saúde dos filhotes e que a maioria destes estudos era realizado com dois grupos: um em que as ratas realizavam dietas restritivas na gestação e outro com uma dieta sem restrições. Cientistas perceberam que mesmo os ratos que nasciam das mães com dieta sem restrição, desenvolviam maiores riscos de hipertensão. A especialista alerta que a partir desta simples análise é possível compreender que as gerações podem ser afetadas por comportamentos alimentares e que uma dieta inadequada pode gerar sobrepeso e obesidade à criança: 

“A dieta hipercalórica durante a gestação, pode fazer com que a mãe transmita por meio dos genes tanto aos filhos quanto para os netos, bisnetos, esses problemas de saúde e por isso é tão importante a conscientização.”

A especialista conta que um outro estudo foi realizado com primatas que foram divididos em dois grupos: um grupo tinha uma dieta normal (correta) e o outro, uma dieta correta, mas acrescida de injeção de calorias (30% a mais). Os cientistas perceberam que dentre os primatas que realizavam a dieta hipercalórica, o índice de insulina (hormônio que faz a metabolização da glicose) estava maior. Além das alterações nos níveis de insulina, estes bebês apresentavam alterações no endotélio dos vasos:

“Essa é uma resposta inadequada que gera nos bebês o risco de desenvolver problemas como a hipertensão arterial na vida adulta ou até mesmo na infância, então os filhos que nasceram de mães que tiveram dieta hipercalórica, mesmo sendo uma dieta correta , ainda assim, sofreram as consequências do período gestacional.”

O estudo Obesidade induzida por consumo de dieta: modelo em roedores para o estudo dos distúrbios relacionados com a obesidade, ressalta que animais jovens alimentados com dieta hipercalórica por um longo período de tempo, aumentaram o peso corporal, diferente dos animais que faziam parte do grupo-controle. O artigo explica que em algumas investigações se percebeu o aumento do peso corporal e em outras, não, o que leva a crer que o tipo de dieta pode ter influência na gênese da obesidade.

A pediatra Andreza Juliani acrescenta que o estudo feito com ratos mostrou que as ratas que tiveram dieta hipercalórica, ganhavam consequentemente mais peso e que os filhotes já nasciam com peso acima da média em comparação aos filhotes nascidos de mães que realizavam dieta adequada. E percebeu-se ainda que mesmo ao longo do tempo e mesmo em lactação e com dieta adequada, esses filhotes se desenvolviam e chegavam à idade adulta com peso maior e testes também foram realizados submetendo os filhotes de dieta hipercalórica a uma alimentação também hipercalórica como teste de deposição de gordura, que mostrou que esses filhotes ganhavam mais peso em comparação ao grupo-controle:

“A conclusão deste trabalho mostrou que os filhos que nasciam de dieta inadequada já nasciam maiores e mesmo depois do nascimento, com dieta adequada, apresentavam alterações no peso e depois de ingerirem grandes quantidades de calorias, tinham mais tendência a engordar. Então existe sim essa relação genética do quanto se ganha de peso dependendo do quanto se consome.”

No mesmo estudo citado, a médica explica que outros fatores genéticos foram analisados e níveis hormonais se mostravam em desequilíbrio na prole que nasceu de dieta inadequada, o que gerava alterações como o aumento de peso, alterações nos níveis de leptina e alterações nos polipeptídeos, localizados no cérebro, na região do hipotálamo e que respondem pela sensação de saciedade: 

“Se há algum defeito nesse polipeptídeo por algum motivo tanto genético quanto em casos conhecidos como hipermetilação, em que recebe alguns componentes a mais e não funciona bem, acaba fazendo com que a pessoa sinta menos saciedade. Então nesse estudo citado, os ratos já nasciam com alteração nesses mecanismos de fome e de saciedade, que também possuem relação com o ganho excessivo de peso.”

Por isso é tão importante que as mães realizem uma dieta adequada na gestação que precisa estar no equilíbrio entre a dieta restritiva e a dieta hipercalórica. O acompanhamento de um nutricionista de confiança é fundamental e restrições alimentares sejam elas quais forem na gestação, poderão causar danos à saúde da criança e até mesmo desencadear o surgimento de doenças crônicas.

Leia também: De mãe para filho: a ciência tem mostrado que problemas de saúde são repassados ao feto


 

 

Dra. Andreza Juliani – Pediatra e endocrinologista infantil
Fanpage: www.facebook.com/DRAANDREZAJULIANIGILIO
Site: www.doutoraandreza.com.br

 

 

 


Fontes

Congresso de Alimentação e Hábitos Saudáveis na Infância.

Nutricionista de Deborah Secco explica dieta feita pela atriz na gravidez. Ego: ego.globo.com/famosos/noticia/2016/05/nutricionista-de-deborah-secco-explica-dieta-feita-pela-atriz-na-gravidez.html

Efeitos da Desnutrição Intra-Uterina e da Recuperação Nutricional sobre Respostas Metabólicas ao Exercício Crônico em Ratos Jovens. Realizado por: Márcio Pereira da Silva; Eliane Stevanato; Veridiana Mota Moreira; Marcelo Porto; Maria Alice R. de Mello: www.rc.unesp.br/ib/efisica/motriz/05n2/5n204Pereira.pdf

Obesidade induzida por consumo de dieta: modelo em roedores para o estudo dos distúrbios relacionados com a obesidade. Realizado por: Tiago Campos Rosini; Adelino Sanchez Ramos da Silva; Camila de Moraes: www.scielo.br/pdf/ramb/v58n3/v58n3a21.pdf

Daiana Barasa